Lola Lovers,

Há alguns dias, postei a foto de um evento do qual participarei na Livraria Martins Fontes, da Paulista (no dia 31/03, às 19:00 – fica a dica) em que me creditaram como ex garota de programa. A verdade é que eu prefiro Puta aposentada, mas acho que os organizadores acharam o termo forte demais. Eu gosto assim porque não quero amenizar o que eu vivi, não quero esquecer de um passado tão importante pra mim. Da travessia.

Vi comentários de Lola Lovers chocados, perguntando se eu tinha mesmo parado. Lembro de muitos me questionarem pelo fato de que nas entrevistas eu dizia que, se pudesse, seria puta pra sempre, mas eu também sempre disse que a beleza da vida é poder mudar e experimentar coisas novas. Mais do que uma história de vida cheia de sexo e transgressão,  minhas escolhas sempre prezaram pela liberdade, por poder ser quem queremos ser a despeito dos julgamentos alheios.

Nesse sentido, decidi viver a prostituição e enfrentar tudo e todos porque aquela era eu e eu queria viver  esse universo de peito aberto, nem sempre tão destemida, mas disposta a me superar e eu consegui. As pessoas pararam pra me ouvir, aquela caipira de mecha loira recém saída do interior; muitos me odiaram, é verdade, mas eles me liam e assistiam as entrevistas. Talvez até tenham parado pra pensar no assunto e eu acho isso bárbaro. Fico muito feliz quando encontro alguém que diz que admira meu trabalho. O meu trabalho, meus queridos, foi viver e descobrir essa menina tão fragmentada que eu sou. Certo ou errado, cabe a cada um pensar por si, mas a verdade é que eu tentei, me arrisquei e não foi fácil. Eu chorei muito no meio da travessia, perdi a família, perdi Diadorim, perdi uma porção de coisas pra ganhar o que eu considerava essencial: ser quem eu realmente era.

Fui puta por três anos e vivi situações que foram muito além de sexo; eu entendi muito sobre a humanidade, sobre as fragilidades, sobre ser mulher, sobre ser homem, sobre ser gay, trans, mas a verdade é que eu comecei a sentir uma falta imensa de estudar e me faltava tempo para me dedicar à pesquisa.

Minha vida era uma loucura, entre atendimentos, entrevistas, blog e livro, uma correria só. Comecei a sentir que estava fazendo tudo pela metade e essa não era eu. Além disso, comecei a ver as dificuldades pelas quais tantas meninas passavam, com tanto preconceito e julgamentos e percebi que apenas trabalhando como puta eu não poderia fazer muita coisa além de dar algumas entrevistas, o que é ótimo, mas não é tudo. Agora que eu tinha know how, eu poderia estudar, reunir provas e publicar livros e teses que possam ter peso nessas discussões e quem sabe, melhorar a vida de tantos que trabalham com prostituição.

Novamente, tive que fazer uma escolha e eu decidi priorizar o lado intelectual. Se eu disser que foi fácil, estarei mentindo. Cada escolha exige sacrifícios e essa não foi diferente. Meu estilo de vida mudou radicalmente para foco e disciplina nos estudos e nos cursos que ministro.

Algum tempo depois, conheci o Gerald e não tenho a menor vergonha em dizer que nos apaixonamos assim de cara; logo a dona Lola Benvenutti, que nunca tinha acreditado muito nessas histórias de amor. Ao contrário do que eu imaginava, tempos depois, quando finalmente reuni coragem para contar minha história, ele se mostrou tão orgulhoso de mim, da minha coragem e determinação, sem nunca me julgar, que eu soube que ele era o cara.

Se eu encaretei e virei princesa da Disney? É claro que não! Continuo transando bastante, com ele, minha vida está longe de ser boring, e eu trabalho muito, muito, todos os dias: escrevendo, criando cursos e palestras e agora, finalmente, tendo tempo para alavancar o blog e youtube, que era algo que eu queria muito fazer e nunca me sobrava tempo. Finalmente agora, posso responder as dúvidas e e-mails de vocês e manter contato mais frequentemente.

Os meus desafios agora são outros, mas eu prometo que vocês gostarão muito de fazer parte dessa nova jornada. Vem comigo?

3 Comments

  1. Cheyla

    8 de março de 2017 at 13:46

    Surreal sua história de vida!
    Parabéns Lola (Gabi ). Sou sua fã!!

  2. Jota

    21 de março de 2017 at 22:08

    Navegando por sua página no facebook li um comentário “imoral” feito por um fã em uma de suas publicações: “Bons tempos que ainda podíamos te ter…”. Minha opinião é que o mundo a tem na melhor forma possível hoje, como uma formadora de opiniões, defensora da liberdade e do respeito aos limites nas relações. Fico muito feliz por saber que está realizando pesquisa pela Unesp e gostaria de ler sua tese após a conclusão. Não deixe de a publicar aqui no blog viu? Posso dizer que sou um homem melhor ao refletir com suas provocações e espero ser mais provocado ainda. São muito bons os tempos em que podemos te ter nos provocando mais do que com o corpo… com as palavras! Bjs de um super fã!

  3. Sandro

    18 de novembro de 2017 at 11:50

    Tengo uma solucao para os Lolalovers ( os milhares de fas que nao perdíam nenhuma entrevista e iam correbdo ao blog ler as ultimas postagens ) :.’ Lola quase proibida ‘ e’ criar um programa na tv .Nao para falar sobre sua experiencia como gatota de programa ,más para dar dicas de literatura , psicología , relaciobamento e sexualidade .E fazer entrevistas com pessoas que tb podemos nos ajudar a crescer . Sinceramente Sandro

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